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Dec 12, 2012 | Post by: admin Comments Off

Pedro Chorão “Permanência de um Modo”

Durante muitos anos segui de perto a obra de Luís Dourdil. Brincando a sério com o pintor, já na sua fase mais adiantada, costumava fazer-lhe a suprema síntese da sua obra, dizendo-lhe: «Apesar das diferenças, o Dourdil tem pintado o mesmo quadro pela vida fora.» Ao que ele se ria, achando com bonomia que aquela ideia era “sábia”. Algo de semelhante se tem passado com a produção pictórica de Chorão, que expõe agora na galeria Bloco 103, até 31 de Dezembro. Expõe um conjunto de peças a que se poderá conferir a designação de “nova série”: bela nova série, coerente, pressupondo uma composição lógica, matemática e sobretudo sensível, ainda que na subtil linha do “quadro de sempre,” da permanência do mesmo modo de formar, esplendorosamente “semelhante na diferença”. Usando valores de um só azul e manobras de cinza a partir do negro, Chorão convoca a silhueta negativa de um só vaso, sempre do mesmo tamanho, vai povoando o espaço sustentado por faixas horizontais, aqui e além, perto uns dos outros ou mais longe uns dos outros assimetricamente. Em volta da sua marca, a mesma carnação plástica bem nossa conhecida, hábil, rítmica, gestual, espécie de textura. Algo de «coincidente» acontece nas faixas a negro e cinza, marcas que parecem sinais de uma presença desfeita, agora de mera ausência, embora delineando brancos aos quais, pela sua posição geográfica nas faixas e no quadro, desencadeiam visualmente uma equivalência musical, batidas arrastadas ou curtas num instrumento de percussão.
E é só isto? É só uma espécie de quadro que se repete no controlado imaginário do autor? Claro que sim e claro que não. Há aqui um percurso de sensibilidades sobrepostas, o contante encobrimento (na atmosfera plástica) de memórias desnecessárias em termos ilustrativos, recuperáveis aqui e além como um perceptivo despertar do real, na linha, na silhueta, na quase representação abandonada no grande oceano de nuvens azuladas e cortes imprevistos. Chorão inspirou-se na matéria de Dourdil mas nunca a copiou porque era impossível (além de desaconselhável deontologicamente). É o que acontece com ele: ninguém se cola a tal pintura porque isso não dá cópia nem profundidade sensível.

Texto: Rocha de Sousa

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